Nas últimas duas semanas, têm sido notícia em todo o mundo os protestos pró-democracia que têm agitado o território de Hong Kong.
Antecedentes
Hong Kong foi durante séculos território do Reino Unido, tal como Macau foi pertença de Portugal. Estas duas cidades portuárias, localizadas no meio de território chinês, foram, até há poucos anos, os últimos vestígios que restaram dos impérios europeus no Oriente.
Ora, na segunda metade do século XX, a China começou a reforçar as suas reclamações pela posse dos dois territórios, e a sua transferência acabou por tornar-se inevitável. O grande problema é que tanto o Reino Unido como Portugal eram países democráticos, com eleições livres e uma economia de mercado tendencialmente capitalista, enquanto a China, embora tenha efectuado reformas que a transformaram profundamente ao longo das últimas décadas, continua a ter um regime de partido único (teoricamente comunista, embora na verdade a China actual já pouco tenha a ver com o comunismo), com censura, prisões políticas, sem eleições livres e com uma economia dirigida ao sabor da vontade do Estado.
O governo chinês acordou então com o Reino Unido e com Portugal uma solução para este problema, que ficou conhecida como "um país, dois sistemas": a China ficava com Macau e Hong Kong, mas em troca comprometia-se a conceder-lhes o estatuto de Região Administrativa Especial, não aplicando o seu regime económico e mantendo a legislação deixada pelos europeus por um período de 50 anos.
Alcançado o acordo, Hong Kong tornou-se parte da China em 1997, e o mesmo aconteceu com Macau em 1999.
Porque protestam os manifestantes?
Os manifestantes estão preocupados com o poder de intervenção do governo de Pequim nos assuntos de Hong Kong, e temem que, ao longo do tempo, lhes sejam limitadas as liberdades civis de que sempre gozaram durante o período de administração britânica.
A gota de água que levou ao início destes protestos foi a decisão do Comité Permanente da Assembleia Popular da China (um dos principais órgãos de soberania do país) de aprovar uma reforma eleitoral na qual se prevê que os candidatos a futuras eleições em Hong Kong tenham que ser pré-aprovados pelo regime de Pequim e, caso sejam eleitos, aprovados novamente pelo governo central antes de tomar posse, o que contraria as aspirações da população de eleger livremente os seus governantes já nas próximas eleições de 2016 e 2017.
Como tudo começou
A revolta começou por ser desencadeada por um protesto de estudantes (convocado pela Federação dos Estudantes de Hong Kong), que, em 22 de Setembro, convocaram um boicote às aulas nas universidades e se concentraram em frente à sede do governo para protestar contra a decisão de Pequim. No dia 26 os estudantes do ensino secundário juntaram-se ao boicote e aos protestos.
Nessa mesma noite, os estudantes forçaram uma barreira de segurança e invadiram uma área em frente aos edifícios governamentais cujo acesso ao público era proibido, sendo expulsos com recurso à força na manhã seguinte.
Esta atitude das autoridades fez alastrar o protesto a toda a sociedade, tendo sido lançado o movimento "Occupy Central", que encheu as ruas de Hong Kong de manifestantes, nos maiores protestos das últimas décadas no território. Inspirados na onda de manifestações que correu vários países do Mundo desde o início da crise financeira (desde o "Occupy Wall Street" às "Acampadas" espanholas), os manifestantes começaram a instalar tendas no local do protesto, recusando-se a abandoná-lo.
A polícia continuou a usar a força, fazendo uso de meios como gás pimenta e gás lacrimogénio, o que acabou por dar nome à "Revolução dos Guarda-Chuvas", que os manifestantes têm usado para se defender destes produtos nocivos.
Nada disso teve efeito: os protestos ganharam dimensão e, mais de duas semanas depois, os manifestantes continuam a ocupar as ruas de Hong Kong.
O que se pode esperar?
Talvez apanhado de surpresa pela dimensão dos protestos no seu próprio território, o governo de Pequim tem reagido com alguma cautela às manifestações, tendo inclusive (caso raro!) começado negociações com os manifestantes, posteriormente abandonadas.
O grande medo da comunidade internacional é que se repitam os acontecimentos de Tianamen: em 1989 (enquanto todos os regimes comunistas da Europa iam caindo um a um pela força das manifestações), protestos semelhantes anti-regime e pró-democracia em Pequim terminaram com um verdadeiro massacre, com o governo a mandar o exército intervir com tanques e armas pesadas, que provocaram a morte a largas centenas de manifestantes pacíficos, dando origem a imagens que ainda hoje chocam o Mundo.
Homem contra os tanques: a imagem que se tornou um símbolo do massacre de Tianamen
No entanto, 25 anos depois, o regime de Pequim está perante um dilema: se avança em força contra os manifestantes como em 1989, estraga irremediavelmente o caminho de abertura ao exterior que tem feito desde então e que lhe permite, hoje, rivalizar com os Estados Unidos pelo estatuto de maior potência económica mundial; por outro lado, se não reprimir as manifestações ou se aceitar as exigências dos manifestantes, corre o risco de que os protestos se alastrem a Macau e ao resto do território chinês.
Entretanto, os manifestantes prometem continuar em força com os protestos. Nos próximos dias teremos, certamente, novidades sobre este assunto.
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