Em poucos meses, o grupo terrorista «Estado Islâmico do Iraque e do Levante» (EI) passou de um simples desconhecido a uma das maiores ameaças à paz mundial.
Antecedentes
Embora não haja uma data exacta para a fundação deste grupo terrorista, calcula-se que tenha aparecido entre 2003 e 2004, ou seja, pouco depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos e pelos seus aliados da NATO, e num período em que se formaram vários grupos rebeldes que espalharam pelo Iraque uma onda de violência anti-americana, marcada por atentados terroristas (na sua maioria feitos por bombistas suicidas) que não mais tiveram fim até aos dias de hoje.
O Estado Islâmico tem a sua origem numa ala radical da Al-Qaeda e de outros grupos terroristas, e é formado por guerrilheiros muçulmanos sunitas extremistas (os sunitas são o maior ramo do Islão, ao qual pertencem mais de 80% dos muçulmanos; o segundo ramo mais importante é o dos xiitas, com 16%) que acreditam que a Jihad (guerra santa) faz parte do seu dever espiritual de espalhar a sua fé pelos "infiéis".
Com o apertar da chamada "guerra ao terror" decretada pelo antigo presidente norte-americano George W. Bush e seguida por Barack Obama (que só ordenou a retirada das suas tropas do Iraque a partir de 2010), a Al-Qaeda foi tendo cada vez menos espaço de manobra, e a sua importância e eficácia foi-se reduzindo, principalmente a partir da captura e assassinato do seu líder histórico, o multimilionário saudita Osama Bin Laden, pelo exército americano em 2011.
Depois de alguns anos de relativa "calmaria" (não houve mais grandes atentados nos Estados Unidos nem na Europa), parecia que o maior perigo terrorista para o ocidente tinha sido eliminado. Pura ilusão. No Iraque e na Síria, o Estado Islâmico fazia recrutamentos em massa (não só na zona como até na Europa e nos Estados Unidos) e aumentava rapidamente o seu número de seguidores, que se tornavam ainda mais radicais que os militantes da Al Qaeda.
Como ganhou o Estado Islâmico tanto poder?
Entre 2010 e 2011, o mundo árabe passou por uma imensa mudança. Muitos dos países de maioria muçulmana, que eram governados por violentas ditaduras militares há décadas, foram palco de protestos pró-democracia com origem em movimentos espontaneamente organizados nas redes sociais e que se converteram em grandes manifestações com o apoio da maioria das populações. Apesar da brutal repressão dos regimes ditatoriais, em muitos destes casos as revoluções tiveram sucesso e os ditadores foram depostos: primeiro na Tunísia, com a deposição de Ben Ali; depois na Líbia (morte de Khadafi), Egipto (demissão de Hosni Mubarak), e no Iémen (abandono do presidente Saleh). Noutros países, como a Argélia, Marrocos, Bahrein, Líbano, Jordânia ou Kuwait, as revoltas são pacificadas com algumas cedências dos governos às reivindicações dos manifestantes.
Apenas num país a situação não foi controlada. Na Síria, os protestos pela demissão do ditador Bashar Al-Assad foram violentamente reprimidos, mas os opositores não se deram por vencidos, o que levou a um confronto militar de grandes proporções- a Guerra Civil Síria- que decorre há mais de dois anos e provocou cerca de 200 mil mortos, mais de 6 milhões de desalojados e 3 milhões de refugiados.
Neste contexto, o Estado Islâmico (EI) entra na guerra, não só contra o exército do ditador Bashar Al-Assad, como também contra os rebeldes pró-democracia que são apoiados por países como os Estados Unidos e a Turquia. O EI (também conhecido pela sua sigla inglesa ISIL ou ISIS) rapidamente conseguiu conquistar vastas regiões no leste da Síria, junto à fronteira com o Iraque e a Turquia, num avanço muito violento e difícil de parar.
Bashar Al-Assad, presidente da Síria
Os grandes êxitos do EI na luta contra o regime sírio atraíram para o grupo cada vez mais militantes, financiamento e armas. Isto permitiu aos terroristas avançar noutra frente, realizando atentados e ataques militares um pouco por todo o Iraque, e conseguindo tomar o controlo de grande parte do país.
Situação actual
Perante um exército mal preparado, o seu sucesso no Iraque foi estrondoso. O Estado Islâmico controla, actualmente, quase metade do país, incluindo pontos estratégicos importantes como barragens, campos petrolíferos e refinarias (que lhes permitem vender petróleo e obter com isso elevados rendimentos que usam na compra de armas) e até algumas das cidades mais importantes do país, como Mossul (a segunda cidade do Iraque) e o boa parte da região autónoma do Curdistão iraquiano.
A 29 de Junho de 2014, os terroristas anunciam oficialmente a criação de um califado islâmico nos territórios ocupados da Síria e do Iraque, governado de forma autoritária por um califa (líder supremo) que tomou o nome de Abu Bakr Al-Baghdadi. Um califado é uma forma de organização muito utilizada no antigo islão cujo chefe de estado é um califa, e a lei aplicada é a Sharia- a lei islâmica.
Abu Bakr Al-Baghdadi, autoproclamado califa do Estado Islâmico
Em cada território que ocupa, o Estado Islâmico começa gradualmente a aplicar uma versão radical da Sharia, criando tribunais próprios e desmantelando as instituições do Estado anteriormente existentes. Chegados a uma cidade, dão aos não-muçulmanos um prazo para se converterem ao Islão, que se não o fizerem correm o risco de ser executados, torturados ou escravizados. Espalham um regime de terror pelas cidades, executando sem piedade quem ousa desobedecer-lhes (os relatos de quem foge das cidades ocupadas falam em dezenas de decapitações, sendo as cabeças espalhadas pelos muros das casas para espalhar um clima de terror pelas pessoas). Outras marcas da ocupação são a bandeira negra que os jihadistas penduram no topo do edifício mais alto de cada cidade que conquistam, e uma campanha de propaganda feroz que inclui a distribuição de material informático com vídeos e cânticos de apoio à Jihad e contra a democracia e os "infiéis".
Os principais grupos atingidos pela violência têm sido as minorias cristãs, os muçulmanos xiitas, e os curdos (nomeadamente a minoria yazidi). Há relatos de violações, conversões e casamentos forçados, escravizações, recrutamento de crianças-soldado, e imposição de regras duras quanto aos costumes- as mulheres passam a ser proibidas de sair de casa excepto quando autorizadas pelo marido e têm de usar a burqa (véu de corpo inteiro); os roubos são punidos com a amputação (prática comum nalguns países muçulmanos), etc.
O medo destas perseguições tem levado milhares de pessoas a fugir das regiões que vão sendo ocupadas pelos islamitas, o que criou uma imensa crise de refugiados. A norte, na fronteira com a Turquia, milhares de curdos fugiram nas últimas semanas da cidade de Kobani (onde se desenrolam agora intensos combates pelo controlo da cidade entre curdos e islamitas radicais), tendo algumas povoações do Curdistão turco recebido tantos refugiados que triplicaram a sua população.
Refugiados curdos na Turquia observam os combates em Kobani, na Síria
A reacção internacional
Apanhada inicialmente de surpresa com o crescimento rapidíssimo do Estado Islâmico, os países ocidentais e também os da região demoraram a reagir. Os Estados Unidos, por exemplo, nunca tinham intervido directamente na Guerra Civil da Síria por causa da oposição e ameaças da Rússia, que apoia o regime de Bashar Al-Assad e tem revelado uma crescente hostilidade para com os americanos.
No entanto, com o Estado Islâmico às portas de Bagdade e a esmagar as forças opositoras, a comunidade internacional acabou por ter que intervir. Para além disso, o recrutamento de muitos milicianos estrangeiros (nomeadamente europeus- até alguns portugueses!-, americanos e árabes dos países vizinhos) que prometem regressar aos países de origem para continuar a "guerra santa" através de atentados terroristas em massa, provocou, principalmente nos governos do ocidente, o medo de uma crise de terrorismo nos seus próprios países.
Jihadistas recrutados em países ocidentais
Outro factor decisivo para o avanço ocidental foi o horror provocado em vários países pelo tratamento dado aos reféns estrangeiros que os terroristas conseguem fazer- jornalistas e membros de organizações humanitárias têm vindo a ser assassinados por decapitações filmadas e cujas imagens têm corrido mundo.
Países como os Estados Unidos, a Austrália, vários membros da NATO (como o Reino Unido, a França, o Canadá, a Alemanha, a Itália, a Holanda ou a Espanha), formaram uma coligação inédita com países árabes como a Arábia Saudita, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia e o Bahrein, e estão, desde o início de Agosto, a efectuar bombardeamentos aéreos contra alvos estratégicos do Estado Islâmico, como bases militares, campos petrolíferos e refinarias. Outros países europeus- incluindo alguns de maioria islâmica como a Albânia ou a Bósnia-Herzegovina-, têm apoiado a ofensiva fornecendo material militar. O próprio Irão e a Rússia já se declararam adversários do Estado Islâmico. Nunca nenhum grupo ou estado tinha suscitado tanta oposição internacional como este.
No entanto, nenhum país se dispôs ainda a avançar por terra, com tropas suas, contra os terroristas. A Turquia, que tem o Estado Islâmico a controlar territórios que fazem fronteira com o país e com vários apoiantes dentro da própria Turquia, tem sido pressionada pela comunidade internacional a avançar, mas o poder político turco tem até agora resistido a avançar.
A guerra contra o Estado Islâmico continua, assim, feroz e sem perspectivas de terminar nos próximos tempos.
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