terça-feira, 28 de outubro de 2014

Eleições no Brasil, Ucrânia, Tunísia e Uruguai

O passado fim-de-semana ficou marcado por importantes eleições em vários países-chave para importantes regiões estratégicas do Mundo. No Brasil, Dilma Rousseff foi reeleita Presidente; na Ucrânia, os partidos pró-União Europeia tiveram uma importante vitória; na Tunísia, os islamitas perderam para o partido Nidaa Tounès; e no Uruguai vai ser necessária uma segunda volta para escolher o novo Presidente.

Vamos, então, por partes:

Eleições Presidenciais no Brasil

Dilma Rousseff (do PT, de esquerda) conseguiu ser reeleita "Presidenta", embora por uma curta margem. Foram, na verdade, as eleições mais renhidas desde que o Brasil voltou a ser uma democracia, no final dos anos 80. Os votos dos Estados do Nordeste- principalmente Pernambuco, Ceará, Bahia, Maranhão, Sergipe, Alagoas e Rio Grande do Norte, onde Dilma obteve esmagadoras percentagens à volta dos 70% dos votos- foram decisivos para esta vitória. Aécio Neves (do PSDB, de centro-direita) obteve as maiores votações nos estados mais ricos, a sul- São Paulo, Paraná e Santa Catarina-, mas estas vitórias não chegaram para vencer. Noutros estados importantes a eleição foi mais renhida, com Dilma a conseguir vencer no Rio de Janeiro com 55% dos votos, e em Minas Gerais (estado de origem dos dois candidatos) com 52%.  

A vitória de Dilma, mais ligada à esquerda e às camadas mais pobres da população, fez a Bolsa de São Paulo cair vertiginosamente e a moeda brasileira (o real) desvalorizar, uma vez que os empresários e os investidores preferiam Aécio Neves. Com Dilma, será de esperar uma maior aposta nos programas sociais e num mercado de trabalho regulado, com legislação mais favorável aos trabalhadores. O grande desafio do novo governo, que estará no poder até 2018 (completando o maior período de governação ininterrupta de sempre do PT, de 16 anos), será dar a volta à crise económica que o Brasil parece começar a atravessar devido à estagnação da sua economia. Será ainda com Dilma no poder que o Rio de Janeiro receberá os Jogos Olímpicos de 2016.
 

Eleições Legislativas na Ucrânia

Na Ucrânia, realizaram-se as primeiras eleições legislativas (para escolher o Parlamento e o Governo) desde a revolução e o início da guerra civil.  O chamado "Bloco Petro Poroshenko", de apoio ao Presidente da República eleito este ano, venceu as eleições com uma pequena vantagem sobre a Frente Popular do até agora Primeiro-Ministro provisório Arseni Yatseniuk. Ambos defendem uma aproximação à União Europeia, tal como o terceiro partido mais votado, o "Auto-Ajuda", formado por militares que combatem na guerra civil contra os pró-russos. Em quarto lugar ficou o Bloco da Oposição, formado por apoiantes do anterior Presidente Viktor Ianukovitch, pró-russo, que foi deposto durante a revolução de Fevereiro deste ano.

Resultados das eleições deste domingo (infografia da Euronews)

Como ninguém obteve mais que 50% dos votos necessários para haver uma maioria absoluta, já começaram as negociações para a formação de um novo governo, que se espera seja formado por uma aliança de partidos pró-União Europeia, que obtiveram, em conjunto, mais de 3/4 dos votos. Petro Poroshenko, ao comemorar a vitória, disse que o objectivo do novo governo será fazer todas as alterações legais necessárias à integração na União Europeia, sendo que apontou o objectivo de ver a Ucrânia entrar na União já em 2020.

O Governo Russo já aceitou os resultados eleitorais, embora os separatistas pró-russos não o tenham feito. Nas regiões que controlam (Donetsk e Luhansk, no leste do país), as milícias russófonas não permitiram a realização destas eleições, pretendendo realizar uma votação controlada por si no próximo dia 2 de Novembro que, naturalmente, não é reconhecida pelo Governo Ucraniano.

Eleições Legislativas na Tunísia

Na Tunísia realizaram-se as primeiras eleições legislativas desde a chamada "Revolução de Jasmim", em que vastas manifestações levaram à fuga do ditador Ben Ali, em 2011, inspirando protestos semelhantes por vários países que deram origem à chamada "Primavera Árabe". 

Mesa de voto em Tunes, capital da Tunísia
 
Após a revolução, foi eleita uma Assembleia Constituinte, com o objectivo de escrever a nova Constituição. Estas eleições tinham sido ganhas por um partido islamista moderado- o Ennahda. No entanto, este domingo, os islamistas foram derrotados por um partido laico- o Nidaa Tounès-, pelo que é expectável que a revolução tunisina (a mais bem-sucedida de todas as da Primavera Árabe) continue por um caminho mais moderado e próximo ao Ocidente, não havendo tentações, como tem havido noutros países, de implementar regimes dominados pela lei islâmica, o que poderia constituir um risco para a Europa, que está apenas a escassos quilómetros de distância da Tunísia e dos seus vizinhos.

Eleições no Uruguai:

Presidente cessante José Mujica chega de "Carocha" para votar nas eleições deste domingo

Após quatro anos de mandato do Presidente José Mujica, um agricultor conhecido como "o presidente mais pobre do Mundo" pela sua simplicidade ( doa a maior parte do seu salário, vive numa casa modesta, conduz um velhinho "Carocha" e recusa praticamente todas as regalias próprias de um chefe de estado), o Uruguai foi às urnas para eleger o seu sucessor.

No entanto, tudo ficou adiado para uma segunda volta a realizar em Novembro. Isto porque o candidato do partido de Mujica, Tabaré Vázquez, não conseguiu os 50% dos votos necessários para ser eleito à primeira. Em segundo e terceiro lugares ficaram, respectivamente, Luis Lacalle Pou e Pedro Bordaberry, ambos de partidos de centro-direita. Bordaberry já anunciou o seu apoio a Lacalle Pou para a segunda volta.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Eleições presidenciais no Brasil

Este domingo realiza-se a segunda volta das eleições presidenciais naquele que é simultaneamente o maior país da América do Sul e o maior país da Lusofonia- o Brasil. Dilma Rousseff, actual presidente (ou presidenta, como gosta de ser chamada), e Aécio Neves, disputam o cargo numa das eleições mais renhidas de sempre da democracia brasileira- o que resultou numa das mais violentas campanhas eleitorais de sempre no país.

 Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves- as três principais figuras destas eleições

Quem são os candidatos?

  • Dilma Rousseff- actual presidente, pertence ao Partido dos Trabalhadores (PT), e é apoiada por uma ampla coligação de partidos de esquerda (do centro-esquerda à extrema-esquerda). Foi a mulher que o anterior presidente brasileiro, Lula da Silva designou como sua sucessora há quatro anos. Polémica quanto baste, Dilma viu a sua popularidade muito afectada pelos protestos anti-corrupção em massa que afectaram o Brasil por altura da organização do mundial de futebol deste Verão. No entanto, é apoiada por uma imensa massa popular, principalmente da classe baixa e média-baixa, devido a políticas sociais como o Bolsa Família- programa que através de ajudas económicas do Governo tirou milhões de brasileiros da pobreza.
  • Aécio Neves- neto de Tancredo Neves, primeiro presidente democraticamente eleito do Brasil após a ditadura que durou até aos anos 80, é o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Esteve em risco de não passar à segunda volta, tendo conseguido superar a votação da candidata da coligação entre o Partido Socialista e os ecologistas, Marina Silva, que substituiu Eduardo Campos, anterior candidato que faleceu num misterioso acidente de aviação antes da primeira volta das eleições. Aécio conseguiu o apoio de Marina Silva, com quem fez um pacto eleitoral para a 2ª volta, e é apoiado pelos descontentes com a governação de Dilma Rousseff, e por uma importante parte dos brasileiros que começa a sentir os efeitos da crise económica que se está a iniciar no Brasil.

Que importância internacional têm estas eleições?

O Brasil é hoje um dos "pesos pesados" da economia e da política internacionais. Com cerca de 200 milhões de habitantes, é o 5º país mais populoso do Mundo e também o 5º maior em termos de território. O grande desenvolvimento económico que conheceu ao longo da última década leva a que seja englobado no grupo dos "BRIC" (Brasil, Índia, Rússia e China), que para muitos economistas reúne os 4 países que, devido ao crescimento do seu poder económico e político e às suas grandes dimensões, se estão a tornar as grandes potências mundiais, ameaçando a tradicional liderança global dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão.

Principais indicadores dos BRIC (infografia do China Daily)

Dentro da América Latina, o Brasil é um gigante, que acaba por influenciar todos os outros países. Tradicionalmente, os países latino-americanos são marcados pela instabilidade política, e durante muitos anos foram oscilando entre regimes pró-EUA (mais à direita) e anti-EUA (mais à esquerda). Na última década, no entanto, a maioria dos países sul-americanos virou à esquerda, com regimes que se opõem abertamente à influência norte-americana- casos da Argentina (presidências do casal Kirchner), Equador (Rafael Correa), Venezuela (Hugo Chávez e agora Nicolás Maduro), Bolívia (Evo Morales), entre outros.

Nesta predominância da esquerda na América Latina desempenharam um papel fundamental as presidências do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil, que com Lula da Silva conquistou pela primeira vez a presidência do Brasil, tendo-a conservado nos últimos 12 anos.

Assim, as eleições do Brasil são determinantes para o futuro de toda esta região do globo: 
  • Se Dilma vencer, é de esperar que o Brasil continue com políticas económicas e com uma diplomacia mais à esquerda, mantendo a América Latina como uma zona quase totalmente dominada por ideologias políticas mais próximas do socialismo. Diplomaticamente, e para além dos seus parceiros sul-americanos de esquerda, Dilma está mais próxima de países como Cuba, a Rússia ou a China.
  • Se, pelo contrário, Aécio Neves for eleito, é possível que se venha a assistir ao início do declínio do domínio da esquerda na América Latina, que já se começa a avistar pela caótica crise em que mergulhou a Venezuela após a morte de Hugo Chávez no ano passado . Diplomaticamente, é de esperar que Aécio se volte a aproximar dos Estados Unidos e da União Europeia.
Do vencedor dependerão também as políticas que o Brasil utilizará para lidar com a crise económica que começa a atravessar depois de muitos anos de prosperidade:

  • Se Dilma vencer, é provável que continuem as políticas com forte predomínio social, com o objectivo de tirar mais brasileiros da pobreza e levá-los para a classe média que. Esta foi uma política de sucesso nos últimos anos- com o crescimento da classe média, milhões de pessoas que sairam da pobreza passaram a consumir mais, dando um grande impulso à economia brasileira.
  • Se Aécio vencer, é provável que opte por combater os abusos nas políticas sociais (a direita argumenta que muitos brasileiros se servem dos programas sociais para não trabalhar e viver à custa do Estado), e siga um caminho rumo a uma economia de mercado mais capitalista (privatizações, flexibilidade laboral, incentivos às empresas, etc.).

Como funciona o sistema eleitoral do Brasil?

O Brasil é uma república democrática presidencialista- ou seja, o Governo não é chefiado pelo primeiro-ministro (como acontece em Portugal), mas sim pelo Presidente da República (como nos Estados Unidos e em França, por exemplo). 

O Presidente da República é eleito de quatro em quatro anos e pode cumprir um máximo de dois mandatos (ou seja, oito anos). Assim, se Dilma Rousseff vencer, entrará no seu último mandato, governando no máximo até 2018. 

As eleições presidenciais realizam-se, tal como em Portugal, a duas voltas: na primeira, apresentam-se vários candidatos a votação, e se algum deles tiver mais de 50% dos votos é eleito Presidente nessa data. Se nenhum chegar aos 50%, realiza-se uma segunda volta (que será este domingo), em que só participam os dois candidatos mais votados na 1ª volta (neste caso, Aécio Neves e Dilma Rousseff), sendo que quem vencer é eleito Presidente.

Resta dizer que o voto no Brasil é obrigatório, ou seja, que teoricamente quem votar está sujeito a multas e outro tipo de sanções. Mesmo assim, na 1ª volta, mais de 19% dos eleitores não foi votar. No Brasil é ainda utilizado um sistema bastante inovador de voto electrónico, que permite saber rapidamente os resultados, o que é bastante útil num país com esta dimensão territorial e populacional.

Cabine electrónica de votação no Brasil

O que dizem as sondagens?

Na 1ª volta, Dilma Rousseff conseguiu vencer com 41,59% dos votos. Agora, busca entre os que votaram noutros candidatos os cerca de 8% dos votos que lhe faltam para ser reeleita. No entanto, o apoio de Marina Silva (que ultrapassou os 20%) a Aécio Neves pode retirar-lhe a vitória, se uma grande maioria dos votantes de Marina optar agora por Aécio. 

Resta ver se o voto em Marina Silva na 1ª volta foi maioritariamente um voto anti-Dilma, e se os eleitores (maioritariamente de centro-esquerda) que a escolheram estão tão desiludidos com Dilma que preferem um governo à direita do que um governo à esquerda chefiado pela actual "presidenta".

Resultados da 1ª volta (infografia do Público)

As sondagens realizadas nos últimos dias têm dado resultados muito renhidos. Nos primeiros dias após a 1ª volta, davam a vitória a Aécio Neves, sempre por uma margem curta. Depois, passaram a dar um empate técnico (ou seja, os dois candidatos registavam resultados tão próximos que estavam dentro da margem de erro da sondagem, sendo por isso esta inconclusiva). As últimas sondagens já revelam uma vantagem, embora curta, de Dilma Rousseff.

 Sondagens para a segunda volta: a verde, Dilma; a azul, Aécio. (infografia da RTP)

No domingo saberemos quem será o Presidente (ou Presidenta) do Brasil nos próximos quatro anos.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Atentados do Estado Islâmico no Canadá

O Canadá, país pouco habituado a estar no topo da actualidade mundial, presenciou entre ontem e hoje inéditos atentados terroristas atribuídos a "jihadistas", provavelmente ligados ao «Estado Islâmico».

Tiroteio dentro do Parlamento do Canadá
  • Na segunda-feira, dois soldados do exército do Canadá foram atropelados em Montreal, na região do Quebec (costa atlântica do país), enquanto caminhavam perto de um centro comercial. Segundo a polícia e os seus vizinhos, o autor do atropelamento (que foi morto pelas autoridades), é um rapaz de 25 anos que se converteu ao islamismo radical há cerca de um ano. Um dos soldados acabou por falecer.
  • Hoje, quarta-feira, três tiroteios agitaram a cidade de Ottawa, capital do Canadá. No primeiro, um homem armado matou a tiro um soldado que guardava um memorial de guerra. O soldado acabou por morrer e o atirador foi abatido pela polícia. Apesar de se suspeitar que haja ligações do atirador ao Estado Islâmico, ainda não há certezas.
  • O segundo tiroteio ocorreu dentro do Parlamento do Canadá, quando vários homens armados entraram no edifício, disparando vários tiros. Um dos suspeitos foi morto pela polícia, mas o acontecimento colocou Ottawa em estado de sítio, com a polícia a fechar várias ruas da cidade e a aconselhar os residentes e os deputados a não sair de casa e a evitar vir à janela. Os telemóveis foram bloqueados na região e o Primeiro-Ministro foi afastado do local. Felizmente, não houve vítimas mortais.
  •  O terceiro tiroteio ocorreu num centro comercial a 300 metros do Parlamento, obrigando à sua evacuação. Nestes dois últimos tiroteios, registaram-se 3 feridos.

 Ruas cortadas em Ottawa devido aos atentados de hoje

 Estes atentados acontecem dias depois de o governo canadiano ter anunciado a participação da sua força aérea nos bombardeamentos a alvos do Estado Islâmico (EI) no Iraque, e podem ser uma represália dos islamitas radicais contra o envolvimento dos canadianos no conflito. São também os primeiros atentados realizados por este grupo num país ocidental. O EI já ameaçou vários países europeus e aliados dos Estados Unidos com atentados terroristas em série, e teme-se que este tipo de acções comece a tornar-se frequente também noutros países. O governo norte-americano fechou a sua embaixada no Canadá e elevou o estado de alerta do país.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Estado Islâmico: a grande ameaça global

Em poucos meses, o grupo terrorista «Estado Islâmico do Iraque e do Levante» (EI) passou de um simples desconhecido a uma das maiores ameaças à paz mundial.



Antecedentes

Embora não haja uma data exacta para a fundação deste grupo terrorista, calcula-se que tenha aparecido entre 2003 e 2004, ou seja, pouco depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos e pelos seus aliados da NATO, e num período em que se formaram vários grupos rebeldes que espalharam pelo Iraque uma onda de violência anti-americana, marcada por atentados terroristas (na sua maioria feitos por bombistas suicidas) que não mais tiveram fim até aos dias de hoje.

O Estado Islâmico tem a sua origem numa ala radical da Al-Qaeda e de outros grupos terroristas, e é  formado por guerrilheiros muçulmanos sunitas extremistas (os sunitas são o maior ramo do Islão, ao qual pertencem mais de 80% dos muçulmanos; o segundo ramo mais importante é o dos xiitas, com 16%) que acreditam que a Jihad (guerra santa) faz parte do seu dever espiritual de espalhar a sua fé pelos "infiéis".
Com o apertar da chamada "guerra ao terror" decretada pelo antigo presidente norte-americano George W. Bush e seguida por Barack Obama (que só ordenou a retirada das suas tropas do Iraque a partir de 2010), a Al-Qaeda foi tendo cada vez menos espaço de manobra, e a sua importância e eficácia foi-se reduzindo, principalmente a partir da captura e assassinato do seu líder histórico, o multimilionário saudita Osama Bin Laden, pelo exército americano em 2011.

Depois de alguns anos de relativa "calmaria" (não houve mais grandes atentados nos Estados Unidos nem na Europa), parecia que o maior perigo terrorista para o ocidente tinha sido eliminado. Pura ilusão. No Iraque e na Síria, o Estado Islâmico fazia recrutamentos em massa (não só na zona como até na Europa e nos Estados Unidos) e aumentava rapidamente o seu número de seguidores, que se tornavam ainda mais radicais que os militantes da Al Qaeda.

Como ganhou o Estado Islâmico tanto poder?

Entre 2010 e 2011, o mundo árabe passou por uma imensa mudança. Muitos dos países de maioria muçulmana, que eram governados por violentas ditaduras militares há décadas, foram palco de protestos pró-democracia com origem em movimentos espontaneamente organizados nas redes sociais e que se converteram em grandes manifestações com o apoio da maioria das populações. Apesar da brutal repressão dos regimes ditatoriais, em muitos destes casos as revoluções tiveram sucesso e os ditadores foram depostos: primeiro na Tunísia, com a deposição de Ben Ali; depois na Líbia (morte de Khadafi), Egipto (demissão de Hosni Mubarak), e no Iémen (abandono do presidente Saleh). Noutros países, como a Argélia, Marrocos, Bahrein, Líbano, Jordânia ou Kuwait, as revoltas são pacificadas com algumas cedências dos governos às reivindicações dos manifestantes. 

Apenas num país a situação não foi controlada. Na Síria, os protestos pela demissão do ditador Bashar Al-Assad foram violentamente reprimidos, mas os opositores não se deram por vencidos, o que levou a um confronto militar de grandes proporções- a Guerra Civil Síria- que decorre há mais de dois anos e provocou cerca de 200 mil mortos, mais de 6 milhões de desalojados e 3 milhões de refugiados.

Neste contexto, o Estado Islâmico (EI) entra na guerra, não só contra o exército do ditador Bashar Al-Assad, como também contra os rebeldes pró-democracia que são apoiados por países como os Estados Unidos e a Turquia. O EI (também conhecido pela sua sigla inglesa ISIL ou ISIS) rapidamente conseguiu conquistar vastas regiões no leste da Síria, junto à fronteira com o Iraque e a Turquia, num avanço muito violento e difícil de parar.

 
Bashar Al-Assad, presidente da Síria

Os grandes êxitos do EI na luta contra o regime sírio atraíram para o grupo cada vez mais militantes, financiamento e armas. Isto permitiu aos terroristas avançar noutra frente, realizando atentados e ataques militares um pouco por todo o Iraque, e conseguindo tomar o controlo de grande parte do país.

Situação actual

Perante um exército mal preparado, o seu sucesso no Iraque foi estrondoso. O Estado Islâmico controla, actualmente, quase metade do país, incluindo pontos estratégicos importantes como barragens, campos petrolíferos e refinarias (que lhes permitem vender petróleo e obter com isso elevados rendimentos que usam na compra de armas) e até algumas das cidades mais importantes do país, como Mossul (a segunda cidade do Iraque) e o boa parte da região autónoma do Curdistão iraquiano. 

A 29 de Junho de 2014, os terroristas anunciam oficialmente a criação de um califado islâmico  nos territórios ocupados da Síria e do Iraque, governado de forma autoritária por um califa (líder supremo) que tomou o nome de Abu Bakr Al-Baghdadi. Um califado é uma forma de organização muito utilizada no antigo islão cujo chefe de estado é um califa, e a lei aplicada é a Sharia- a lei islâmica.

 Abu Bakr Al-Baghdadi, autoproclamado califa do Estado Islâmico

Em cada território que ocupa, o Estado Islâmico começa gradualmente a aplicar uma versão radical da Sharia, criando tribunais próprios e desmantelando as instituições do Estado anteriormente existentes. Chegados a uma cidade, dão aos não-muçulmanos um prazo para se converterem ao Islão, que se não o fizerem correm o risco de ser executados, torturados ou escravizados. Espalham um regime de terror pelas cidades, executando sem piedade quem ousa desobedecer-lhes (os relatos de quem foge das cidades ocupadas falam em dezenas de decapitações, sendo as cabeças espalhadas pelos muros das casas para espalhar um clima de terror pelas pessoas). Outras marcas da ocupação são a bandeira negra que os jihadistas penduram no topo do edifício mais alto de cada cidade que conquistam, e uma campanha de propaganda feroz que inclui a distribuição de material informático com vídeos e cânticos de apoio à Jihad e contra a democracia e os "infiéis".

Os principais grupos atingidos pela violência têm sido as minorias cristãs, os muçulmanos xiitas, e os curdos (nomeadamente a minoria yazidi). Há relatos de violações, conversões e casamentos forçados, escravizações, recrutamento de crianças-soldado, e imposição de regras duras quanto aos costumes- as mulheres passam a ser proibidas de sair de casa excepto quando autorizadas pelo marido e têm de usar a burqa (véu de corpo inteiro); os roubos são punidos com a amputação (prática comum nalguns países muçulmanos), etc.

Refugiados curdos na Turquia observam os combates em Kobani, na Síria


A reacção internacional

Apanhada inicialmente de surpresa com o crescimento rapidíssimo do Estado Islâmico, os países ocidentais e também os da região demoraram a reagir. Os Estados Unidos, por exemplo, nunca tinham intervido directamente na Guerra Civil da Síria por causa da oposição e ameaças da Rússia, que apoia o regime de Bashar Al-Assad e tem revelado uma crescente hostilidade para com os americanos.

No entanto, com o Estado Islâmico às portas de Bagdade e a esmagar as forças opositoras, a comunidade internacional acabou por ter que intervir. Para além disso, o recrutamento de muitos milicianos estrangeiros (nomeadamente europeus- até alguns portugueses!-, americanos e árabes dos países vizinhos) que prometem regressar aos países de origem para continuar a "guerra santa" através de atentados terroristas em massa, provocou, principalmente nos governos do ocidente, o medo de uma crise de terrorismo nos seus próprios países.

 Jihadistas recrutados em países ocidentais

Outro factor decisivo para o avanço ocidental foi o horror provocado em vários países pelo tratamento dado aos reféns estrangeiros que os terroristas conseguem fazer- jornalistas e membros de organizações humanitárias têm vindo a ser assassinados por decapitações filmadas e cujas imagens têm corrido mundo.
Países como os Estados Unidos, a Austrália, vários membros da NATO (como o Reino Unido, a França, o Canadá, a Alemanha, a Itália, a Holanda ou a Espanha), formaram uma coligação inédita com países árabes como a Arábia Saudita, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia e o Bahrein, e estão, desde o início de Agosto, a efectuar bombardeamentos aéreos contra alvos estratégicos do Estado Islâmico, como bases militares, campos petrolíferos e refinarias. Outros países europeus- incluindo alguns de maioria islâmica como a Albânia ou a Bósnia-Herzegovina-, têm apoiado a ofensiva fornecendo material militar. O próprio Irão e a Rússia já se declararam adversários do Estado Islâmico. Nunca nenhum grupo ou estado tinha suscitado tanta oposição internacional como este.

No entanto, nenhum país se dispôs ainda a avançar por terra, com tropas suas, contra os terroristas. A Turquia, que tem o Estado Islâmico a controlar territórios que fazem fronteira com o país e com vários apoiantes dentro da própria Turquia, tem sido pressionada pela comunidade internacional a avançar, mas o poder político turco tem até agora resistido a avançar.

A guerra contra o Estado Islâmico continua, assim, feroz e sem perspectivas de terminar nos próximos tempos.

domingo, 12 de outubro de 2014

Hong Kong: a revolução dos guarda-chuvas

Nas últimas duas semanas, têm sido notícia em todo o mundo os protestos pró-democracia que têm agitado o território de Hong Kong. 


Antecedentes

Hong Kong foi durante séculos território do Reino Unido, tal como Macau foi pertença de Portugal. Estas duas cidades portuárias, localizadas no meio de território chinês, foram, até há poucos anos, os últimos vestígios que restaram dos impérios europeus no Oriente. 

Ora, na segunda metade do século XX, a China começou a reforçar as suas reclamações pela posse dos dois territórios, e a sua transferência acabou por tornar-se inevitável. O grande problema é que tanto o Reino Unido como Portugal eram países democráticos, com eleições livres e uma economia de mercado tendencialmente capitalista, enquanto a China, embora tenha efectuado reformas que a transformaram profundamente ao longo das últimas décadas, continua a ter um regime de partido único (teoricamente comunista, embora na verdade a China actual já pouco tenha a ver com o comunismo), com censura, prisões políticas, sem eleições livres e com uma economia dirigida ao sabor da vontade do Estado. 

O governo chinês acordou então com o Reino Unido e com Portugal uma solução para este problema, que ficou conhecida como "um país, dois sistemas": a China ficava com Macau e Hong Kong, mas em troca comprometia-se a conceder-lhes o estatuto de Região Administrativa Especial, não aplicando o seu regime económico e mantendo a legislação deixada pelos europeus por um período de 50 anos.

Alcançado o acordo, Hong Kong tornou-se parte da China em 1997, e o mesmo aconteceu com Macau em 1999.

Porque protestam os manifestantes?

Os manifestantes estão preocupados com o poder de intervenção do governo de Pequim nos assuntos de Hong Kong, e temem que, ao longo do tempo, lhes sejam limitadas as liberdades civis de que sempre gozaram durante o período de administração britânica. 

A gota de água que levou ao início destes protestos foi a decisão do Comité Permanente da Assembleia Popular da China (um dos principais órgãos de soberania do país) de aprovar uma reforma eleitoral na qual se prevê que os candidatos a futuras eleições em Hong Kong tenham que ser pré-aprovados pelo regime de Pequim e, caso sejam eleitos, aprovados novamente pelo governo central antes de tomar posse, o que contraria as aspirações da população de eleger livremente os seus governantes já nas próximas eleições de 2016 e 2017.

Como tudo começou

 

A revolta começou por ser desencadeada por um protesto de estudantes (convocado pela Federação dos Estudantes de Hong Kong), que, em 22 de Setembro, convocaram um boicote às aulas nas universidades e se concentraram em frente à sede do governo para protestar contra a decisão de Pequim. No dia 26 os estudantes do ensino secundário juntaram-se ao boicote e aos protestos.

Nessa mesma noite, os estudantes forçaram uma barreira de segurança e invadiram uma área em frente aos edifícios governamentais cujo acesso ao público era proibido, sendo expulsos com recurso à força na manhã seguinte. 

Esta atitude das autoridades fez alastrar o protesto a toda a sociedade, tendo sido lançado o movimento "Occupy Central", que encheu as ruas de Hong Kong de manifestantes, nos maiores protestos das últimas décadas no território. Inspirados na onda de manifestações que correu vários países do Mundo desde o início da crise financeira (desde o "Occupy Wall Street" às "Acampadas" espanholas), os manifestantes começaram a instalar tendas no local do protesto, recusando-se a abandoná-lo.


A polícia continuou a usar a força, fazendo uso de meios como gás pimenta e gás lacrimogénio, o que acabou por dar nome à "Revolução dos Guarda-Chuvas", que os manifestantes têm usado para se defender destes produtos nocivos.

Nada disso teve efeito: os protestos ganharam dimensão e, mais de duas semanas depois, os manifestantes continuam a ocupar as ruas de Hong Kong.


O que se pode esperar?

Talvez apanhado de surpresa pela dimensão dos protestos no seu próprio território, o governo de Pequim tem reagido com alguma cautela às manifestações, tendo inclusive (caso raro!) começado negociações com os manifestantes, posteriormente abandonadas.
 
O grande medo da comunidade internacional é que se repitam os acontecimentos de Tianamen: em 1989 (enquanto todos os regimes comunistas da Europa iam caindo um a um pela força das manifestações), protestos semelhantes anti-regime e pró-democracia em Pequim terminaram com um verdadeiro massacre, com o governo a mandar o exército intervir com tanques e armas pesadas, que provocaram a morte a largas centenas de manifestantes pacíficos, dando origem a imagens que ainda hoje chocam o Mundo.

Homem contra os tanques: a imagem que se tornou um símbolo do massacre de Tianamen

No entanto, 25 anos depois, o regime de Pequim está perante um dilema: se avança em força contra os manifestantes como em 1989, estraga irremediavelmente o caminho de abertura ao exterior que tem feito desde então e que lhe permite, hoje, rivalizar com os Estados Unidos pelo estatuto de maior potência económica mundial; por outro lado, se não reprimir as manifestações ou se aceitar as exigências dos manifestantes, corre o risco de que os protestos se alastrem a Macau e ao resto do território chinês.

Entretanto, os manifestantes prometem continuar em força com os protestos. Nos próximos dias teremos, certamente, novidades sobre este assunto.



sábado, 11 de outubro de 2014

Início



Na espuma dos dias e das notícias, muito se perde. E, nas sociedades contemporâneas, não basta querer ser informado para se ser realmente informado. É preciso separar o trigo do joio, concentrarmo-nos no essencial e ter uma visão de conjunto que os órgãos de comunicação social, marcados pelo imediatismo e, por que não dizê-lo, tantas vezes pela ânsia do sensacionalismo, não nos transmitem. O objectivo deste blogue é, de uma forma tão isenta e concisa quanto possível, pegar nas quantidades colossais de informação solta com que somos bombardeados, voluntaria ou involuntariamente, todos os dias, e transformá-la no mínimo denominador comum, juntando as peças do puzzle. Tentarei, ao longo dos posts, fazê-lo, com uma linguagem tão simples e clara quanto possível, para chegar a todos. 


A alguns este blogue poderá parecer, à primeira vista, mais um dos milhentos espaços de comentário político que inundam a internet, a televisão, e os restantes órgãos de comunicação social. Mas não é isso que pretendo fazer: enquanto os comentadores de tudo e mais alguma coisa pretendem formar opinião, colocando os outros a pensar como eles; o que aqui pretendo é contribuir humildemente para que cada um compreenda a informação que lhe é dada, para que possa pensar pela sua própria cabeça.

 


Isso- que cada cidadão pense pela sua própria cabeça- é essencial para que haja uma democracia plena, e é o que está a faltar, não só em Portugal, mas em todas as sociedades da Europa. Muitos dos que são da minha geração, dos que nasceram nos anos 80 e 90, ficaram muito marcados na sua relação com a cidadania por um “não querer saber” transmitido pelas gerações anteriores, desiludidas com uma política em que parecia que todos eram iguais e, ao invés, numa sociedade onde tudo ia correndo mais ou menos “sobre rodas”, sem necessidade de grandes actos colectivos de cidadania.

 


Assim nasceu uma geração à qual a política e a intervenção cívica pouco dizem, em que os meios académicos (que foram responsáveis por tantas mudanças na Europa dos últimos dois séculos) pouca influência têm no rumo da sociedade; em suma, uma geração que tem aspirações e ideias, mas que não se consegue fazer ouvir. É esse desinteresse- culpa de todos!- que urge combater, e aí surge esta necessidade de dar um fio condutor às notícias- porque só percebendo-as se consegue ter opinião, e a confusão noticiosa em que vivemos, em que pouco ou nada é explicado a quem quer perceber, é uma das grandes responsáveis pelo desinteresse de boa parte da minha geração: mesmo quem queira informar-se perde-se no meio do caos informativo.

 



Espero sinceramente que este blogue que hoje crio se torne um ponto de encontro para quem gosta de saber em que areias se move no mundo em que vive. Eu, desde já, que não estou ligado a nenhum partido político, comprometo-me a ser o mais isento e claro que consiga.